Ministério do Turismo, Instituto Unimed BH e Associação No Ato apresentam:

Cá entre nós: algumas palavras pra aquilo que chamamos de respirar

Reflexões e expansões a partir dos espetáculos Entre Nós e Fragmentos daquilo que chamamos vida.

Karina, Roberta e Zylus.
Lauanne e Tatiane,
apesar de tudo, espero que estejam bem!

Estas palavras são sobre vocês, mulheres-meninas ávidas para ressignificar as coisas no mundo e as coisas em nós.

Sabem, andei refletindo umas coisas sobre o fazer artístico. Eu acho que a arte, e pensando aqui o teatro, não salva a gente de nada. Mesmo. Não tô melancólica ou pessimista. Antes, escrevo estas palavras com alegria de me saber uma mulher-negra-respirante, apesar de tudo…

Então, o teatro não salva nada e nem ninguém. Ele não é por si só revolucionário, emancipador ou qualquer outra coisa que queiram. Mas ele, teatro, é uma brecha, uma fresta, uma festa, pronta para gente se ocupar dela e coreografar danças afetuosas, de recriação das narrativas entre nós e de fabulação dos fragmentos daquilo que chamamos vida.

É sobre essa brecha, lugar onde se pode imaginar e reimaginar nossas vivências, delícias e dores de sermos quem somos, que escrevo, pois “as palavras não ditas (ou não escritas) congelam no tempo.”, né, Joana?

Nossos corpos não deixam de pulsar vida e criatividade mesmo confinados. E o confinamento, em Entre Nós, é forma e tema. Como elaborar esteticamente nossas culpas, angústias e medos? A escolha estética, aqui, aponta para espaços miúdos de cena, em que vemos os corpos das atrizes confinados em pequenos lugares que, de tão pequenos, fazem reverberar a imensidão e as complexidades de suas próprias existências.

São três pequenos espaços que quase bloqueiam nossa respiração, nossos movimentos e pensamentos, assim como os das atrizes.  É nesse ponto, ou seja, na forma, que elas trabalham não a paralisia dos corpos em confinamento e a desesperança, mas brincam sinestesicamente com a plateia virtual. O que emerge daí? Como reencenar a culpa e fazer dela potência criativa?

Adoro lançar perguntas em meus escritos usando como: como expressar esteticamente as subjetividades das existências? Como tecer um texto para ser proferido em cena? Como elaborar um “eu” performático para a experiência teatral? Obviamente, não sei como, mas suspeito de um tanto de coisa. Suspeito! E minhas suspeitas aqui apontam para o compartilhamento das sensibilidades, entre nós, que dizem da força política e poética de ressignificar pensamentos, as formas de fazer teatro nas brechas e frestas, e as dores, não para apaga-las, mas fazer delas cicatrizes que nos acompanham na potência mesma de nossas vidas, em cena e fora dela.

É essa potência criativa que tece e retece fio-a-fio nossos fragmentos de vida, nos fazem respirar e entender que, “às vezes, só quero desabar e me erguer com outro formato”. O teatro, com sua força de festa e de criação, nos possibilita cair e, já na queda, nos preparar para “sacudir a poeira e dar a volta por cima”, imaginando o presente e confabulando futuros.

Em Fragmentos daquilo que chamamos vida, cada vez que as atrizes caem e se colocam de pé novamente, é como se levantassem, ou melhor, se levantam corpos performativos e políticos de denúncia de violências que, mais do que resistirem, anunciam uma estética de amor próprio, de direito sobre o próprio corpo, evidenciada pela música que potencializa a dramaturgia da cena, “eu vou dar a minha piriquita…”.  É sobre o direito de escolha.

Até a deusa do amor, elo entre o céu e a terra, Oxum, aparece para reencenar o amor próprio vindo de lutas constantes de vários tempos e que segue firmemente dentro e fora de cena. Aqui, a cultura negra é colocada no palco como um lugar de relação semiótica que, longe de performar o exotismo constante quando se fala de culturas de matrizes e motrizes africanas, dá a ver outras tradições, imagens, gramáticas e conhecimentos. O teatro e suas brechas!!!

É na aproximação da câmera parada, numa espécie de aparte cara a cara com o público ou de um distanciamento brechtiano, que as atrizes atualizam a força e o desejo de, nos desafios, seguirem na costura da vida. E que assim seja!

Mulheres-meninas artistas, espero que tenham saúde constante. Alegrias vibrantes para continuarem atuando nas brechas e produzindo festas.

Com açúcar e afeto.

Soraya Martins