Ministério do Turismo, Instituto Unimed BH e Associação No Ato apresentam:

Teatro na Escola – Resenhas críticas

Por Soraya Belusi

PRÓLOGO

“(…) de uma arte que, em certa medida, não pode acontecer agora. Porque, de fato, as questões que nos impõem agora, que existem, que estão na nossa vida, mexem diretamente no coração do teatro”. Quis abrir esse texto com esse pensamento proferido pela atriz, diretora e dramaturga Grace Passô, durante o debate inaugural da 14 Mostra CineBH, que afetou sobremaneira a forma de conduzir essa reflexão proposta aqui pela curadoria do FETO 2020.

O verbo afetar, inclusive, tem tudo a ver com o que se passa por aqui. É sobre afeto a minha relação com o teatro, com o FETO e com a crítica. Exercício que há muito não praticava e que precisei reaprender a fazer. E não há ambiente melhor para isso que a escola. Não a escola como espaço físico somente, mas como possibilidade de ampliação de pensamento e de percepção, como a oportunidade de se jogar numa teia expandida de saberes que nos alimentam e ampliam. Então fui pesquisar, ouvir, ler o que meus pares/mestres/referências estão pensando sobre este momento que vivemos: sobre teatro, sobre suporte, sobre dispositivos, sobre a necessidade de criar mesmo que isso pareça impossível.

É assim que enxergo essa edição do FETO e ainda mais essa categoria para a qual dedico meu olhar. Teatro na Escola. Estão aí, lado a lado, duas impossibilidades de uma vez só. Não é possível ir ao teatro, muito menos à escola nesse contexto de pandemia. Então como fazer teatro na escola? Mas há algo na frase de Grace que abre um portal. É justamente quando ela diz “em certa medida”. Porque essa inviabilidade é relativa à medida que vem sendo superada diariamente pela necessidade criativa, gerando uma ampla gama de trabalhos que escapam, escorregam, se diluem na nossa obsessão pela categorização. Seria teatro digital? Teatro mediado? Seria teatro?

Essas são perguntas que sequer precisamos nos fazer. Elas importam menos, bem menos, do que o fazer em si. Ele sim é relevante num momento em que tudo nos leva a não fazer. Foi isso que me fez estar aqui. Foi isso que fez o FETO 2020 estar aqui. Vocês estarem aqui. No teatro e na escola. Mesmo que não fisicamente nesses espaços, é o que há de essencial neles que encontramos nos trabalhos sobre os quais busco compartilhar meus afetos por aqui.

A POTÊNCIA DA PRESENÇA E DA AUSÊNCIA – FAZENDO AO VIVO

O que define o em tempo real? O ao vivo? Me perguntei durante todo o tempo em que estive assistindo aos experimentos apresentados sobre essa chancela nesta edição. A própria possibilidade de acessar os trabalhos a qualquer momento, já que estão disponíveis na plataforma digital, parece contradizer essa ideia a todo instante. O aqui e agora que tanto define o ato teatral é o que poderia distinguir, ou reafirmar, a especificidade dessas criações em relação a outras que integram o programa dessa edição.

“Dog Day” e “E Se Fôssemos Nós?” potencializam essa sensação de presença tão cara ao fazer teatral de formas distintas. Saber que aquelas pessoas estão ali, em corpo presente, com a possibilidade do imprevisível, do ‘tudo pode acontecer’, traz outra tessitura para a experiência, mesmo que, entre eu e elas, haja uma tela que insiste em se impor.

 O trabalho apresentado pelo Grupo Teatro em Extensão, da UERGS, se apresenta como uma leitura cênica na escola. O próprio conceito de leitura dramática traz em si um universo enorme de possibilidades estéticas e conceituais. Como linguagem, pode navegar do processo à obra final, sendo tanto parte construtora de um espetáculo, por exemplo, como um experimento em si, sem necessidade de outros desdobramentos. Para ser uma leitura o texto tem que estar em mãos? O fato de o texto estar decorado já não desloca nossa percepção para a encenação como linguagem? São só perguntas soltas ao vento, que não necessitam de resposta. Mas que me percorreram durante a apresentação.

É notória a capacidade do grupo em transfigurar para uma linguagem audiovisual o confinamento e o isolamento não só do tempo que vivemos, mas, principalmente, dos personagens que se apresentam na dramaturgia. Enquadrados, praticamente sem corpos, apenas cabeças fixadas em closes que tornam a presença, entre eles (personagens) e entre nós (atores e espectadores), muito mais diluída. É como se estivessem ausentes, mesmo estando ali. Sozinhos, mesmo tendo suas histórias acompanhadas por nós.

A ausência de elementos cênicos, com um cenário de fundo preto, torna tudo ainda mais impessoal no tempo e no espaço. Somos só nós e eles. Nem nós sabemos onde eles estão, assim como não sabem onde estamos. Com o advento digital, podemos estar em qualquer lugar, perto e longe ao mesmo tempo, nós e eles. Só sabemos que há alguém do outro lado, mas não sabemos onde nem como.

A disputa de atenção que o próprio dispositivo nos impõe é o oposto do que acontece num encontro teatral nos moldes tradicionais (aqui e agora, num mesmo espaço). Não estamos totalmente imersos naquele ambiente construído para a nossa presença juntos: é o interfone que toca, o telefone que dispara, a moto que passa, o vizinho que grita. Tudo joga contra a entrega completa do espectador. Mas há uma força de dramaturgia ali contida em “Dog Day” que nos mantém mergulhados no percurso daquelas personas.

Há uma contenção quase realista na intepretação, na utilização de recursos cênicos, na simplicidade com que tudo se apresenta. É uma economia de elementos que nos fixa a atenção na palavra. Tudo muito bem pensado para que o texto salte da tela e preencha o espaço.

Uma das coisas que mais me encanta em festivais é a diversidade: de corpos, propostas, lugares, pessoas e linguagens. Colocados no mesmo recorte de espaço e tempo, esses trabalhos se potencializam uns aos outros, a partir de suas semelhanças e disparidades. E foi assim que cheguei a “E Se Fôssemos Nós?”, do Grupo Teatro JN, de São Vicente, em São Paulo. Suas escolhas e potências são paralelamente opostas às de “Dog Day”. E isso é maravilhoso.

“E Se Fôssemos Nós” se dirige diretamente a quem está do outro lado da tela. Avisa logo que é pela janela (virtual e metafórica) que essa comunicação se dará. Pergunta e responde onde está o público que está ali, mas não está ao mesmo tempo. Dialoga com o espectador, como se precisasse reafirmar o pacto teatral que esse momento nos impôs. Como se reforçasse que estão no teatro, fazendo teatro, filmando o teatro.

Aqui, esse dispositivo digital parece ser mais um meio que um fim. A construção dos cenários é visível para o espectador, que enxerga onde a cena está inserida. O realismo de outrora dá espaço a uma expansão nos gestos, nas vozes, nos corpos, tão caros ao teatro popular que parece conduzir a linguagem do espetáculo. 

A fábula adaptada do texto de Brecht é atualizada para o momento presente, ressaltando na dramaturgia o contexto em que estamos inseridos. O artifício teatral aqui é explicitado nas maquiagens, nos figurinos e cenários, mas sem que isso limite a linguagem que o grupo quer explorar. Em meio a tudo isso cabe uma cena tipicamente ‘documental’, em que a rotina de uma família é retratada de maneira quase naturalista. Há uma liberdade de misturar, de experimentar, de brincar de fazer teatro que torna tudo ainda mais rico de significados e maneiras de acessar nossa sensibilidade e consciência.

POUCO TEMPO COM MUITAS POSSIBILIDADES – CRIAÇÕES DE MINUTO

Como transformar uma limitação em potência? Pergunta para um brasileiro qualquer que ele vai saber te dar ao menos um exemplo. Se não poder criar nos palcos, diante e com a presença do espectador, era uma impossibilidade que se apresentava, a única saída possível mostrou-se um universo enorme de opções a seguir. E dialogar com os formatos tão difundidos nas redes sociais foi um deles. 

Dizem as pesquisas que somos uma das nações em que o consumo de redes sociais é dos maiores no mundo. Então por que não utilizar esse espaço de encontro, mesmo que mediado, para fazer teatro? É o que foi proposto pelos trabalhos da categoria Criações de Minuto, que reuniu três experimentos do Teatro na Escola nesta edição do FETO 2020.

Algumas ‘macas registradas’ dos formatos que são amplamente veiculados nessa mídia também afetaram a construção das obras, que foram apresentadas no Instagram. A velocidade das imagens, a colagem como linguagem, a edição que dita um ritmo que insiste em acelerar – como numa espécie de Reels estendido. Mas cada trabalho tem características muito particulares.

“Cordel da Lapa”, da Escola Estadual Professora Daura de Carvalho Neto, é de uma ingenuidade, no melhor sentido do termo, que dá um afago no coração. Na minha percepção, é a síntese do porquê essa categoria existe no FETO. É teatro na escola pública, feito por crianças e para crianças, sem as regras e as gramáticas que tanto insistimos em padronizar para depois seguir quando crescemos.

O formato narrativo escolhido pelo coletivo que deu vida a “Cordel da Lapa” é ilustrado por uma série de imagens que se fundem no formato de animação, de colagens e, enfim, em uma breve encenação na qual se conta a história de uma aparição de Nossa Senhora. É como se assistíssemos a um auto daqueles que se vê no período de catequese, por exemplo, mas com toda uma elaboração de linguagem – lembrando aqui que os auto religiosos foram fundamentais na história e para a revolução das formas teatrais. Há acabamento e simplicidade nas medidas certas para não se perder a pureza e a espontaneidade que só uma criança pode fazer.

Na outra ponta da linha histórica da construção de linguagens, “Sistema Off-Line”, do Núcleo de Experimentação Cênica, da Escola de Teatro Trupe de Truões, parece ter ido beber nas fontes da performance (teatral e audiovisual) para abordar a dependência dos meios digitais a que nos submetemos na contemporaneidade – agora mais do que nunca. A dependência aqui aparece tanto como submissão quanto como vício.

É o jogo de imagens e sons, com uma trilha que envolve imagens entrecortadas, que nos deixa quase que hipnotizados diante da tela – encontro feliz entre forma e conteúdo. É replicando essa sensação de estarmos dopados diante da obra que eles criticam e questionam o próprio uso da ferramenta em que estão inseridos. Não é porque estamos inseridos em um contexto que não podemos e devemos questioná-lo.

Já “Migraaaantes – A Voz e o Caos” vai buscar na tecnologia de comunicação pioneira, no rádio, ou no rádio teatro, o formato para dialogar com o dispositivo das redes sociais. É de grande potência a construção dramatúrgica do experimento que, em pouco mais de dois minutos, estabelece uma forte crítica à condição da mulher em países do Oriente Médio.

Na cena, um homem e uma mulher. Ele narra, mas é ela quem tem voz. Logo a mulher, tão silenciada, é quem assume o comando de seu discurso no trabalho. O tom irônico utilizado no texto ressalta ainda mais o absurdo da invisibilização dos corpos femininos, tampados, cobertos, demonizados. Uma cantora impedida de cantar em seu país, e cuja arte, nós, espectadores, também não iremos acessar. Uma metáfora que serve não apenas para mulheres em países árabes, mas para mulheres em geral, e artistas no Brasil, sempre na mira de quem deseja os silenciar.

A BELEZA DO POPULAR E DO CONTEMPORÂNEO – IDEIAS CONFINADAS

A sinopse de “João Paneiro” afirma que o trabalho aborda relatos comuns da lenda da serpente, figura emblemática da Ilha de São Luís. É fato que a imagem da serpente e seu poder de devastação/transformação permeia toda a dramaturgia. Mas há algo além disso sendo dito e que possui extrema relevância.

A criação do Teatro de Atores e Animação, de São Luís (MA), traz para a cena um embate entre a tradição e a contemporaneidade, entre o que diz os antigos e o que fazem os novos habitantes dessa terra. É o ensinamento dos sábios ancestrais, na forma da lenda da serpente, que anuncia o que está por vir. Mas João, esse símbolo do homem ordinário, do trabalhador incansável, não há de desistir.

Inserido no contexto do teatro musical, a obra explora as possibilidades do jogral, do coro, que se dá tanto nas vozes quanto na multiplicidade e simultaneidade das janelas virtuais. É na canção que se apoia grande parte da narrativa, que nos remete a um típico cordel, com suas rimas e histórias fantásticas.

Agrega-se a essa linguagem tão cara à escola brasileira e nordestina de teatro popular, a animação com traços de xilogravura, código artístico que nos leva a um universo tão familiar e espetacular. As canções reforçam esse mesmo lugar, com as cirandas e cocos, tão reconhecidos por nós todos. Os efeitos sonoros, sempre escondidos na coxia, aqui ganham o primeiro plano, se tornam também personagens, assim como o papagaio no qual se deposita o traço do humor.

Aos que são de BH e que tiveram a honra de conhecer um mestre do teatro popular, vem logo à lembrança os ensinamentos de Fernando Limoeiro. Não é por acaso que se vê na ficha técnica a tutoria de Raquel Castro, aluna que tanto herdou o que o mestre tem de melhor.

Num outro clima repleto de urbanidade, a imagem da escola vazia já nos leva como espectadores para um choque de realidade. Aqui o distanciamento que nos foi imposto se apresenta como tema, mas também como possibilidade criativa. O aplicativo de mensagens que tanto usamos ao longo dos últimos meses é a base para que a dramaturgia se desenvolva e nos apresente os dilemas e memórias de um grupo de jovens adolescentes. Falo de “Minha Janela se Abriu para a Praça”, criação do Grupo Alta, da Escola Estadual Professor Altamir Gonçalves, de Sorocaba.

É o pé na realidade que pauta as questões presentes na obra, assim como o tom da atuação do grupo de garotas, mais próximo de um registro em busca do naturalismo. É a covid que acomete um ente querido, os obstáculos para o aprendizado à distância – desde a ausência do professor às limitações financeiras para um upgrade na internet.

Testemunhamos como se fizéssemos parte do grupo o turbilhão de pensamentos e sensações que se passam na cabeça de uma adolescente: do medo de perder a vó querida, da alegria de colocar uma música nova para dançar, as coreografias do Tik Tok, uma série de referências que cria empatia imediata. Me adiciona nesse grupo?

JOGOS ENTRE A FORMA E O CONTEÚDO – EXPERIMENTOS CÊNICOS

Saí do grupo de WhatsApp e entrei numa reunião. Muda a plataforma, o formato, mas não o conteúdo. Interessante perceber como uma geração de jovens enxerga esse momento em que vivemos, que questões perpassam seus pensamentos enquanto esperam a vida voltar ao normal. É um pouco do que se vê em “Meet”, experimento cênico do Corpo Composto, de Aparecida de Goiânia.

É também em síntese o sentimento compartilhado por “Migas”, da Companhia Futuro, do Instituto BH Futuro. Nele, duas amigas compartilham seu  mal-estar com algumas atitudes do mundo em que vivemos e juntas procuram uma maneira de superar o isolamento físico, mas também emocional que a pandemia nos impõe.

É quase inevitável aproximar os dois trabalhos. Há tantos pontos complementares entre eles, como o formato da ligação, a temática abordada, a percepção de que nada melhor para fortalecer e se entender melhor que a troca com os amigos. Se “Meet” aposta mais nas individualidades de cada protagonista, naquilo que os torna frágeis e irreconhecíveis para si mesmo neste momento de suspensão, “Migas” lança um olhar para fora das personagens, é o que se dá no mundo que as aflige, preocupa e entristece.

Se o primeiro lança mão de uma diversidade de formatos, que vão da reunião virtual ao audiovisual e à colagem, o segundo aposta na simplicidade de uma câmera, uma tela e nada mais. Nem por isso é menos potente no que se propõe a dizer.

Um grupo de moradores de rua e o que os levou até ali. Esse é o mote de “Sonhando Juntos”, que nos mostra a dura realidade de quem perdeu até os últimos direitos, o de desejar, de sonhar, de querer. É a arte que os liberta, o canto e a dança. Se a proposta é experimentar, o UniTribos, de Lauro de Freitas, não se furta a se jogar numa dimensão criativa em que várias linguagens podem coabitar. É o sonho o espaço onde tudo é possível, onde a violência é anulada pela poesia, onde os corpos se libertam numa dança redentora.

A não-imagem potencializa ainda mais o que se ouve. Em alguns momentos, assim o fiz, de olhos fechados. Como se precisasse parar de ver a tela em branco para pode preenche-la. “Silêncio” é uma experiência sonora. Um experimento literário. Um jogo entre os sentidos, em que o mote “Eu Vim ao Mundo” nos apresenta o que podemos ser, fazer, tornar, fazer, criar. Acusações que perguntam o que foi violado, expressado, desaprovado.

Regras, teatro, linguagem. Linguagem de um teatro sem regras. O trabalho do Colégio Viver e Aprender é de extrema potência, em que a amplitude de imagens cabe ao espectador, guiado pelo que ouve, as palavras e os ruídos. Os sons que formam um silêncio enorme dentro de nós. Escuta para ver. Escuta para criar. Escuta para sair do lugar.

“Ele disse não. Porque não respondeu de acordo com o costume?”. Como a lógica de uma sociedade pode e deve mudar? Por que seguirmos escolhas que não são nossas? Quando romper com um caminho que nos agride e desrespeita? Essas foram algumas perguntas que me acompanharam após assistir a “Não”, experimento da Escola de Teatro Faces.

Um menino que decide acompanhar o professor em uma perigosa viagem para além das montanhas é o mote para discutir a razão de dizermos sim ou não a crenças que não nos pertencem, hábitos que não concordamos. A trupe ousa no formato das imagens, desfoca, borra, mostra partes do corpo num mosaico cênico e imagético.

FETO TEATRO 2020 – RESENHAS CRÍTICAS

TEATRO NA ESCOLA

Por Soraya Belusi

PRÓLOGO

“(…) de uma arte que, em certa medida, não pode acontecer agora. Porque, de fato, as questões que nos impõem agora, que existem, que estão na nossa vida, mexem diretamente no coração do teatro”. Quis abrir esse texto com esse pensamento proferido pela atriz, diretora e dramaturga Grace Passô, durante o debate inaugural da 14 Mostra CineBH, que afetou sobremaneira a forma de conduzir essa reflexão proposta aqui pela curadoria do FETO 2020.

O verbo afetar, inclusive, tem tudo a ver com o que se passa por aqui. É sobre afeto a minha relação com o teatro, com o FETO e com a crítica. Exercício que há muito não praticava e que precisei reaprender a fazer. E não há ambiente melhor para isso que a escola. Não a escola como espaço físico somente, mas como possibilidade de ampliação de pensamento e de percepção, como a oportunidade de se jogar numa teia expandida de saberes que nos alimentam e ampliam. Então fui pesquisar, ouvir, ler o que meus pares/mestres/referências estão pensando sobre este momento que vivemos: sobre teatro, sobre suporte, sobre dispositivos, sobre a necessidade de criar mesmo que isso pareça impossível.

É assim que enxergo essa edição do FETO e ainda mais essa categoria para a qual dedico meu olhar. Teatro na Escola. Estão aí, lado a lado, duas impossibilidades de uma vez só. Não é possível ir ao teatro, muito menos à escola nesse contexto de pandemia. Então como fazer teatro na escola? Mas há algo na frase de Grace que abre um portal. É justamente quando ela diz “em certa medida”. Porque essa inviabilidade é relativa à medida que vem sendo superada diariamente pela necessidade criativa, gerando uma ampla gama de trabalhos que escapam, escorregam, se diluem na nossa obsessão pela categorização. Seria teatro digital? Teatro mediado? Seria teatro?

Essas são perguntas que sequer precisamos nos fazer. Elas importam menos, bem menos, do que o fazer em si. Ele sim é relevante num momento em que tudo nos leva a não fazer. Foi isso que me fez estar aqui. Foi isso que fez o FETO 2020 estar aqui. Vocês estarem aqui. No teatro e na escola. Mesmo que não fisicamente nesses espaços, é o que há de essencial neles que encontramos nos trabalhos sobre os quais busco compartilhar meus afetos por aqui.

A POTÊNCIA DA PRESENÇA E DA AUSÊNCIA – FAZENDO AO VIVO

O que define o em tempo real? O ao vivo? Me perguntei durante todo o tempo em que estive assistindo aos experimentos apresentados sobre essa chancela nesta edição. A própria possibilidade de acessar os trabalhos a qualquer momento, já que estão disponíveis na plataforma digital, parece contradizer essa ideia a todo instante. O aqui e agora que tanto define o ato teatral é o que poderia distinguir, ou reafirmar, a especificidade dessas criações em relação a outras que integram o programa dessa edição.

“Dog Day” e “E Se Fôssemos Nós?” potencializam essa sensação de presença tão cara ao fazer teatral de formas distintas. Saber que aquelas pessoas estão ali, em corpo presente, com a possibilidade do imprevisível, do ‘tudo pode acontecer’, traz outra tessitura para a experiência, mesmo que, entre eu e elas, haja uma tela que insiste em se impor.

 O trabalho apresentado pelo Grupo Teatro em Extensão, da UERGS, se apresenta como uma leitura cênica na escola. O próprio conceito de leitura dramática traz em si um universo enorme de possibilidades estéticas e conceituais. Como linguagem, pode navegar do processo à obra final, sendo tanto parte construtora de um espetáculo, por exemplo, como um experimento em si, sem necessidade de outros desdobramentos. Para ser uma leitura o texto tem que estar em mãos? O fato de o texto estar decorado já não desloca nossa percepção para a encenação como linguagem? São só perguntas soltas ao vento, que não necessitam de resposta. Mas que me percorreram durante a apresentação.

É notória a capacidade do grupo em transfigurar para uma linguagem audiovisual o confinamento e o isolamento não só do tempo que vivemos, mas, principalmente, dos personagens que se apresentam na dramaturgia. Enquadrados, praticamente sem corpos, apenas cabeças fixadas em closes que tornam a presença, entre eles (personagens) e entre nós (atores e espectadores), muito mais diluída. É como se estivessem ausentes, mesmo estando ali. Sozinhos, mesmo tendo suas histórias acompanhadas por nós.

A ausência de elementos cênicos, com um cenário de fundo preto, torna tudo ainda mais impessoal no tempo e no espaço. Somos só nós e eles. Nem nós sabemos onde eles estão, assim como não sabem onde estamos. Com o advento digital, podemos estar em qualquer lugar, perto e longe ao mesmo tempo, nós e eles. Só sabemos que há alguém do outro lado, mas não sabemos onde nem como.

A disputa de atenção que o próprio dispositivo nos impõe é o oposto do que acontece num encontro teatral nos moldes tradicionais (aqui e agora, num mesmo espaço). Não estamos totalmente imersos naquele ambiente construído para a nossa presença juntos: é o interfone que toca, o telefone que dispara, a moto que passa, o vizinho que grita. Tudo joga contra a entrega completa do espectador. Mas há uma força de dramaturgia ali contida em “Dog Day” que nos mantém mergulhados no percurso daquelas personas.

Há uma contenção quase realista na intepretação, na utilização de recursos cênicos, na simplicidade com que tudo se apresenta. É uma economia de elementos que nos fixa a atenção na palavra. Tudo muito bem pensado para que o texto salte da tela e preencha o espaço.

Uma das coisas que mais me encanta em festivais é a diversidade: de corpos, propostas, lugares, pessoas e linguagens. Colocados no mesmo recorte de espaço e tempo, esses trabalhos se potencializam uns aos outros, a partir de suas semelhanças e disparidades. E foi assim que cheguei a “E Se Fôssemos Nós?”, do Grupo Teatro JN, de São Vicente, em São Paulo. Suas escolhas e potências são paralelamente opostas às de “Dog Day”. E isso é maravilhoso.

“E Se Fôssemos Nós” se dirige diretamente a quem está do outro lado da tela. Avisa logo que é pela janela (virtual e metafórica) que essa comunicação se dará. Pergunta e responde onde está o público que está ali, mas não está ao mesmo tempo. Dialoga com o espectador, como se precisasse reafirmar o pacto teatral que esse momento nos impôs. Como se reforçasse que estão no teatro, fazendo teatro, filmando o teatro.

Aqui, esse dispositivo digital parece ser mais um meio que um fim. A construção dos cenários é visível para o espectador, que enxerga onde a cena está inserida. O realismo de outrora dá espaço a uma expansão nos gestos, nas vozes, nos corpos, tão caros ao teatro popular que parece conduzir a linguagem do espetáculo. 

A fábula adaptada do texto de Brecht é atualizada para o momento presente, ressaltando na dramaturgia o contexto em que estamos inseridos. O artifício teatral aqui é explicitado nas maquiagens, nos figurinos e cenários, mas sem que isso limite a linguagem que o grupo quer explorar. Em meio a tudo isso cabe uma cena tipicamente ‘documental’, em que a rotina de uma família é retratada de maneira quase naturalista. Há uma liberdade de misturar, de experimentar, de brincar de fazer teatro que torna tudo ainda mais rico de significados e maneiras de acessar nossa sensibilidade e consciência.

POUCO TEMPO COM MUITAS POSSIBILIDADES – CRIAÇÕES DE MINUTO

Como transformar uma limitação em potência? Pergunta para um brasileiro qualquer que ele vai saber te dar ao menos um exemplo. Se não poder criar nos palcos, diante e com a presença do espectador, era uma impossibilidade que se apresentava, a única saída possível mostrou-se um universo enorme de opções a seguir. E dialogar com os formatos tão difundidos nas redes sociais foi um deles. 

Dizem as pesquisas que somos uma das nações em que o consumo de redes sociais é dos maiores no mundo. Então por que não utilizar esse espaço de encontro, mesmo que mediado, para fazer teatro? É o que foi proposto pelos trabalhos da categoria Criações de Minuto, que reuniu três experimentos do Teatro na Escola nesta edição do FETO 2020.

Algumas ‘macas registradas’ dos formatos que são amplamente veiculados nessa mídia também afetaram a construção das obras, que foram apresentadas no Instagram. A velocidade das imagens, a colagem como linguagem, a edição que dita um ritmo que insiste em acelerar – como numa espécie de Reels estendido. Mas cada trabalho tem características muito particulares.

“Cordel da Lapa”, da Escola Estadual Professora Daura de Carvalho Neto, é de uma ingenuidade, no melhor sentido do termo, que dá um afago no coração. Na minha percepção, é a síntese do porquê essa categoria existe no FETO. É teatro na escola pública, feito por crianças e para crianças, sem as regras e as gramáticas que tanto insistimos em padronizar para depois seguir quando crescemos.

O formato narrativo escolhido pelo coletivo que deu vida a “Cordel da Lapa” é ilustrado por uma série de imagens que se fundem no formato de animação, de colagens e, enfim, em uma breve encenação na qual se conta a história de uma aparição de Nossa Senhora. É como se assistíssemos a um auto daqueles que se vê no período de catequese, por exemplo, mas com toda uma elaboração de linguagem – lembrando aqui que os auto religiosos foram fundamentais na história e para a revolução das formas teatrais. Há acabamento e simplicidade nas medidas certas para não se perder a pureza e a espontaneidade que só uma criança pode fazer.

Na outra ponta da linha histórica da construção de linguagens, “Sistema Off-Line”, do Núcleo de Experimentação Cênica, da Escola de Teatro Trupe de Truões, parece ter ido beber nas fontes da performance (teatral e audiovisual) para abordar a dependência dos meios digitais a que nos submetemos na contemporaneidade – agora mais do que nunca. A dependência aqui aparece tanto como submissão quanto como vício.

É o jogo de imagens e sons, com uma trilha que envolve imagens entrecortadas, que nos deixa quase que hipnotizados diante da tela – encontro feliz entre forma e conteúdo. É replicando essa sensação de estarmos dopados diante da obra que eles criticam e questionam o próprio uso da ferramenta em que estão inseridos. Não é porque estamos inseridos em um contexto que não podemos e devemos questioná-lo.

Já “Migraaaantes – A Voz e o Caos” vai buscar na tecnologia de comunicação pioneira, no rádio, ou no rádio teatro, o formato para dialogar com o dispositivo das redes sociais. É de grande potência a construção dramatúrgica do experimento que, em pouco mais de dois minutos, estabelece uma forte crítica à condição da mulher em países do Oriente Médio.

Na cena, um homem e uma mulher. Ele narra, mas é ela quem tem voz. Logo a mulher, tão silenciada, é quem assume o comando de seu discurso no trabalho. O tom irônico utilizado no texto ressalta ainda mais o absurdo da invisibilização dos corpos femininos, tampados, cobertos, demonizados. Uma cantora impedida de cantar em seu país, e cuja arte, nós, espectadores, também não iremos acessar. Uma metáfora que serve não apenas para mulheres em países árabes, mas para mulheres em geral, e artistas no Brasil, sempre na mira de quem deseja os silenciar.

A BELEZA DO POPULAR E DO CONTEMPORÂNEO – IDEIAS CONFINADAS

A sinopse de “João Paneiro” afirma que o trabalho aborda relatos comuns da lenda da serpente, figura emblemática da Ilha de São Luís. É fato que a imagem da serpente e seu poder de devastação/transformação permeia toda a dramaturgia. Mas há algo além disso sendo dito e que possui extrema relevância.

A criação do Teatro de Atores e Animação, de São Luís (MA), traz para a cena um embate entre a tradição e a contemporaneidade, entre o que diz os antigos e o que fazem os novos habitantes dessa terra. É o ensinamento dos sábios ancestrais, na forma da lenda da serpente, que anuncia o que está por vir. Mas João, esse símbolo do homem ordinário, do trabalhador incansável, não há de desistir.

Inserido no contexto do teatro musical, a obra explora as possibilidades do jogral, do coro, que se dá tanto nas vozes quanto na multiplicidade e simultaneidade das janelas virtuais. É na canção que se apoia grande parte da narrativa, que nos remete a um típico cordel, com suas rimas e histórias fantásticas.

Agrega-se a essa linguagem tão cara à escola brasileira e nordestina de teatro popular, a animação com traços de xilogravura, código artístico que nos leva a um universo tão familiar e espetacular. As canções reforçam esse mesmo lugar, com as cirandas e cocos, tão reconhecidos por nós todos. Os efeitos sonoros, sempre escondidos na coxia, aqui ganham o primeiro plano, se tornam também personagens, assim como o papagaio no qual se deposita o traço do humor.

Aos que são de BH e que tiveram a honra de conhecer um mestre do teatro popular, vem logo à lembrança os ensinamentos de Fernando Limoeiro. Não é por acaso que se vê na ficha técnica a tutoria de Raquel Castro, aluna que tanto herdou o que o mestre tem de melhor.

Num outro clima repleto de urbanidade, a imagem da escola vazia já nos leva como espectadores para um choque de realidade. Aqui o distanciamento que nos foi imposto se apresenta como tema, mas também como possibilidade criativa. O aplicativo de mensagens que tanto usamos ao longo dos últimos meses é a base para que a dramaturgia se desenvolva e nos apresente os dilemas e memórias de um grupo de jovens adolescentes. Falo de “Minha Janela se Abriu para a Praça”, criação do Grupo Alta, da Escola Estadual Professor Altamir Gonçalves, de Sorocaba.

É o pé na realidade que pauta as questões presentes na obra, assim como o tom da atuação do grupo de garotas, mais próximo de um registro em busca do naturalismo. É a covid que acomete um ente querido, os obstáculos para o aprendizado à distância – desde a ausência do professor às limitações financeiras para um upgrade na internet.

Testemunhamos como se fizéssemos parte do grupo o turbilhão de pensamentos e sensações que se passam na cabeça de uma adolescente: do medo de perder a vó querida, da alegria de colocar uma música nova para dançar, as coreografias do Tik Tok, uma série de referências que cria empatia imediata. Me adiciona nesse grupo?

JOGOS ENTRE A FORMA E O CONTEÚDO – EXPERIMENTOS CÊNICOS

Saí do grupo de WhatsApp e entrei numa reunião. Muda a plataforma, o formato, mas não o conteúdo. Interessante perceber como uma geração de jovens enxerga esse momento em que vivemos, que questões perpassam seus pensamentos enquanto esperam a vida voltar ao normal. É um pouco do que se vê em “Meet”, experimento cênico do Corpo Composto, de Aparecida de Goiânia.

É também em síntese o sentimento compartilhado por “Migas”, da Companhia Futuro, do Instituto BH Futuro. Nele, duas amigas compartilham seu  mal-estar com algumas atitudes do mundo em que vivemos e juntas procuram uma maneira de superar o isolamento físico, mas também emocional que a pandemia nos impõe.

É quase inevitável aproximar os dois trabalhos. Há tantos pontos complementares entre eles, como o formato da ligação, a temática abordada, a percepção de que nada melhor para fortalecer e se entender melhor que a troca com os amigos. Se “Meet” aposta mais nas individualidades de cada protagonista, naquilo que os torna frágeis e irreconhecíveis para si mesmo neste momento de suspensão, “Migas” lança um olhar para fora das personagens, é o que se dá no mundo que as aflige, preocupa e entristece.

Se o primeiro lança mão de uma diversidade de formatos, que vão da reunião virtual ao audiovisual e à colagem, o segundo aposta na simplicidade de uma câmera, uma tela e nada mais. Nem por isso é menos potente no que se propõe a dizer.

Um grupo de moradores de rua e o que os levou até ali. Esse é o mote de “Sonhando Juntos”, que nos mostra a dura realidade de quem perdeu até os últimos direitos, o de desejar, de sonhar, de querer. É a arte que os liberta, o canto e a dança. Se a proposta é experimentar, o UniTribos, de Lauro de Freitas, não se furta a se jogar numa dimensão criativa em que várias linguagens podem coabitar. É o sonho o espaço onde tudo é possível, onde a violência é anulada pela poesia, onde os corpos se libertam numa dança redentora.

A não-imagem potencializa ainda mais o que se ouve. Em alguns momentos, assim o fiz, de olhos fechados. Como se precisasse parar de ver a tela em branco para pode preenche-la. “Silêncio” é uma experiência sonora. Um experimento literário. Um jogo entre os sentidos, em que o mote “Eu Vim ao Mundo” nos apresenta o que podemos ser, fazer, tornar, fazer, criar. Acusações que perguntam o que foi violado, expressado, desaprovado.

Regras, teatro, linguagem. Linguagem de um teatro sem regras. O trabalho do Colégio Viver e Aprender é de extrema potência, em que a amplitude de imagens cabe ao espectador, guiado pelo que ouve, as palavras e os ruídos. Os sons que formam um silêncio enorme dentro de nós. Escuta para ver. Escuta para criar. Escuta para sair do lugar.

“Ele disse não. Porque não respondeu de acordo com o costume?”. Como a lógica de uma sociedade pode e deve mudar? Por que seguirmos escolhas que não são nossas? Quando romper com um caminho que nos agride e desrespeita? Essas foram algumas perguntas que me acompanharam após assistir a “Não”, experimento da Escola de Teatro Faces.

Um menino que decide acompanhar o professor em uma perigosa viagem para além das montanhas é o mote para discutir a razão de dizermos sim ou não a crenças que não nos pertencem, hábitos que não concordamos. A trupe ousa no formato das imagens, desfoca, borra, mostra partes do corpo num mosaico cênico e imagético.

O padrão a que estamos acostumados de lidar com a imagem no ambiente virtual, os enquadramentos, o viés ilustrativo é abandonado e substituído por novos recortes, outras formas de contar imageticamente esse história. É como se antes de mais nada, o não viesse para as formas já enraizadas de filmar, narrar, apresentar, permitindo-se brincar na busca de uma nova maneira de fazer e expressar.