Ministério do Turismo, Instituto Unimed BH e Associação No Ato apresentam:

Sobre est(ética) e política ou Ideias (Des)confinadas

Reflexões e expansões a partir das “Ideias Confinadas” Tá tudo bem, vai ficar bem e Websérie Oratório

Por Soraya Martins

As “Ideias Confinadas”, Tá tudo bem, vai ficar bem e Websérie Oratório, apresentam semelhanças importantes quando se pensa na frase: “ Todo artista precisa refletir sobre e a partir do seu tempo.” As duas ideias não só concretizam essa frase em cena, como também apontam para uma associação inevitável para pensar em toda e qualquer forma de expressão artística: ética, estética e política caminham juntas.

Em Tá tudo bem, vai ficar bem, essa associação se dá em nível metafórico. Tal figura de linguagem é usada recorrentemente para se estabelecer uma crítica-criativa acerca do capitalismo selvagem que, desde as grandes navegações, assola o mundo e parece, atualmente, estar no ápice da sofisticação da opressão.

De um lado, um boneco acorrentado, uma espécie de marionete, que chama atenção do público, pois há uma disjunção entre a fala e a voz desse boneco no tempo-espaço, metaforizando um descompasso, um desajuste de ordem do poder econômico e cultural que, a todo custo, tenta ditar os pensamentos, os desejos, os sentimentos e os queres de boneco. Ou melhor, dos subalternizados, os operários. Do outro lado, o “pai” desse boneco, com uma bandana que remete à bandeira dos Estados Unidos e um avental sujo de sangue. A personificação em carne, osso e sangue da era neoliberal vigente e da necropolítica que instrumentaliza a existência humana e destrói materialmente os corpos humanos.

Rubrica:  Neste ponto do texto, imaginem um berrante azul, branco e amarelo sendo tocado.

Quantas arrobas pesam esses bonecos?

Reconfigurando a história e tomando partido: O que pode acontecer quando esses bonecos tomam posição crítica das coisas no mundo?

As respostas a essas perguntas têm a ver com as tomadas de posição diante do complexo desenho que se apresenta a todas as pessoas que são-estão-habitam o mundo. É nesse ponto que, em Tá tudo bem, vai ficar bem, um ator é iluminado por um foco de luz redondo, que produz uma sombra muito maior que o próprio corpo do  ator. Esse foco é como se fosse o olhar do público, ou melhor, é como se ampliasse o foco do público para que ele, público, mire a cena sob outra perspectiva. A sombra gigantesca parece querer extrapolar os limites da própria cena e invadir as consciências para transformar as empatias em gestos que decantem as desigualdades e os privilégios históricos.

Aqui, é a estética junto com a política e a ética jogando luz, criativamente, para a necessidade de se tomar partido e posição sobre tudo, sempre. Pois, “tomar posição é desejar, é exigir algo, é situar-se no presente e visar o futuro.” Um futuro no presente que deseja reconfigurar e reconstruir narrativa outras. São esses os lampejos de luz que o teatro pode, na sua capacidade de transformação sensível, produzir.

Lampejos também são produzidos na Websérie Oratório. Nessa ideia confinada que se apresenta aos poucos, em quatro fragmentos-episódios, os lampejos se perfazem pelas mãos de uma mulher negra, metáfora das relações humanas que só podem ser construídas em redes destituídas de todos os tipos de ódio e preconceito. Aqui, cada episódio é parte que compõe um todo, sinalizando, numa escolha estética fragmentada, que é preciso, através das individualidades, tecer um lugar comum em que as pessoalidades, os desejos e os queres se deem não a partir da tolerância ou respeito à diferença. A “teia” do episódio 4 sinaliza para a dissolução da ideia do diferente, pautada em hierarquias de valor e classificação. Em Oratório, se celebra o desejo e o direito político-humano de ser, somente.

O episódio 1, de início, impacta por uma elaboração cênica que joga um jogo de signos sofisticados em que “a sagrada família”, no seu microcosmo simbolizado por um círculo desenhado no chão fortemente iluminado, vive uma relação racial conflituosa. Aqui, a relação conflituosa entre a mulher branca e o marido negro é evidenciada pelo o som de berimbau. Esse instrumento remete à capoeira, símbolo da resistência cultural e física das pessoas que vieram para o Brasil escravizadas. O sentido simbólico permeia toda a websérie. As lutas pelo direito político de ser somente (negro, gay, trans, lésbica, indígena e/ou tudo que quiser ser) vai sendo costurada por “pequenos” símbolos de resistência, que pontua sempre as mãos de uma mulher negra. Essa mulher só aparece por inteira no último episódio, apontado para uma possibilidade de poder viver uma existência em sua plenitude, a partir das teias de relações inevitáveis entre pessoas que pensam, sentem e desejam diferente.

Tudo nessa ideia confinada se dá sugestivamente, ligando uma ideia na outra: uma referência os conflitos raciais de Anjo Negro de Nelson Rodrigues, que leva a Sortilégio de Abdias do Nascimento; um bonequinho vermelho que deixa de ser o foco quando aparece a boneca, o vermelho dos morangos, da rosa e da linha de costura; o Ofá de Oxossi caçador; a dança da mulher negra que carrega consigo os gestos de dos atores e das atrizes ao longo da websérie e vice-versa; e as cadeiras vermelhas de um teatro vazio. É esse vazio que pode ser preenchido por possibilidades de fabular os teatros e, principalmente, as relações existenciais para que o presente e futuro não sejam uma linha solta desconectada dos nossos modos reflexivos e criativos de recosturar o mundo e as pessoas que o habitam.

Artista-cidadão, cidadão-artista não pode fugir do seu destino.