Ministério do Turismo, Instituto Unimed BH e Associação No Ato apresentam:

Sobre dois minutos no espaço-tempo

Reflexões e expansão a partir das criações de minuto: Antes de falar já não se ouve, Manifesto por um teatro do olho e Paradinha.

Por Soraya Martins

O que se pode fazer em dois minutos? Pensando rapidamente, dois minutos podem não significar nada em nossas vidas. Dois minutos podem volatilizar no espaço-tempo do nada a ser feito. Mas dois minutos podem ser uma imensidão-criativa quando se lida com o imaginário numa busca constante por partilhar as entrelinhas que pulsam desejos e as possibilidades de ressignificar tanto os modos de fazer teatro, quanto as existências individuais e, principalmente, coletivas.

Numa época em que tempo é dinheiro e ninguém tem tempo a perder, porque perder tempo é perder dinheiro, dois minutos do tempo do público foram preenchidos não por uma ânsia de mercantilizar cada minuto, num jogo interminável de acúmulo. Mas, antes, por imagens e sensações que tentam reconfigurar o ser/estar no mundo, a partir de uma crítica-criativa de como habitar ou não habitar esse mundo em farrapos, mas que pode (e deve) ser reconstruído-reimaginado.

Antes de falar já não se ouve, Manifesto por um teatro do olho e Paradinha jogam com um recurso de linguagem que diz da mistura das diferentes sensações percebidas pelo corpo humano – visão, audição e tato – para gerar um efeito discursivo e vibrar no desejo de compartilhar o sensível, mesmo através das câmeras que são um pouco do olho-olhar do espectador nesse momento de lonjuras ou, sobretudo, por isso.

Essas três criações de minuto derramam na cena-vídeo gestos sinestésicos. Na performance audiovisual Antes de falar já não se ouve, tem-se o derramamento de imagens que dizem do embrutecimento e coisificação humana: sacola plástica encobrindo a cabeça de uma pessoa (e por extensão sua capacidade de fala e pensamento), a boca tapada por um código de barras. Essas imagens formam, do mesmo modo que a linguagem, superfícies de inscrição privilegiadas para se ler a complexidade dos nossos tempos. Já não se ouve porque as bocas estão obliteradas, as pessoas coisificadas e/ou se perdeu a mais importante ação do processo comunicacional, a saber, a escuta? A potência, aqui, está no como os atores convocam o público para ler essas imagens, pois as imagens pouco dizem se não há o trabalho de analisa-las, decompô-las, remonta-las e interpretá-las. Nessa criação, o público é parte ativa no processo crítico-criativo da montagem das imagens para dá a ver outras possibilidades de habitar o mundo, não como corpos-produtos, mas como corpos falantes, vibrantes, produtores de pensamento crítico e de alegrias.

É nesse lugar de vibração e ressignificação das coisas no/do mundo, que Manifesto por um teatro do olho salta aos olhos, mas sobretudo salta aos ouvidos. A palavra aqui é tecida com o objetivo expresso de todo e qualquer manifesto: ser persuasivo, declarar publicamente princípios e intenções que alertam para um problema ou fazer uma denúncia. A palavra é fabulada docemente na intenção, da atriz que fala, de “denunciar” não só um problema, a perda dos encontros pulsantes que o teatro, por excelência, proporciona, mas apontar caminhos para reelaborar as ausências. Mais do que resistir a um período pandêmico, é preciso criar. Ou só se resiste a um período pandêmico, criando. E a criação desse manifesto aponta não para soluções já prontas e supostamente certeiras. O teatro do olho, aqui, quer reimaginar um teatro que se instaure na potência dos lugares de falha, na vibração da ausência que se faz presença. Logo, o teatro do olho é uma imagem que explode as fronteiras, se cria e recria a todo tempo como imagem que convoca para ver para além das imagens já existentes. É um manifesto da recriação como única forma de se dedicar a um desejo, ou seja, é uma busca que aponta, na forma e no conteúdo, para as urgências e delicadezas da (re)eleboração estética.

A estética não é estática e em Paradinha, ao contrário do que sugere o nome, o movimento se estabelece como forma, escolha estética. Os movimentos dos carros, das pessoas, das imagens, do pensamento. O ir. E os movimentos de volta, como se rebobinasse uma fita cassete que, agora, só existe, em pensamento. Todos esses movimentos são evidenciados por um marcador de espaço-lugar: o vento, ou melhor, o barulho do vento. É esse barulho que dá ritmo aos movimentos da vida, apesar da suspensão/paralisia em que se vive. É esse barulho-ritmo que imprime em Paradinha a não inércia das pessoas e das coisas, dando a ver, entre um sopro e outro, a possibilidade mesma de respirar, viver um dia de cada vez e viver os afetos de forma urgente. Movimentar, em Paradinha, é uma forma de não sucumbir ao “novo normal” e nem ao tédio causados pela pandemia. É uma forma de abrir espaços onde se pode imaginar outras possibilidades de vida depois que a pandemia passar e descobrir outras formas de demonstrar o amor. No jogo dicotômico entre estar paradinha e movimentar, em suas brechas, essa criação de minuto instaura uma forma de nos situar no presente e visar um futuro em que somos responsáveis direto pela tessitura das relações que não estão por vir, mas já são. Movimentar, nesse sentido, é produzir a diferença, é aquilo que permite produzir criatividade e formas outras de existir.