Ministério do Turismo, Instituto Unimed BH e Associação No Ato apresentam:

Sobre a telateatro, o(s) feminino(s) e o desejo coletivo de experienciar

Reflexões e expansões a partir dos experimentos cênicos Agora que são elas, América das outras, Preta Rosa Egipcíaca, Exercícios para dias estranhos e Vozes do corpo.

Por Soraya Martins

O verbo “experimentar” significa submeter à experiência, ensaiar e testar. Pensar no primeiro significado desse verbo, ou seja, submeter à uma experiência, no caso, aqui, cênica aponta para a riqueza de experienciar e dá a ver algo, colocar-se em jogo e jogar, testando, com as possibilidades criativas e imaginárias que o teatro ou a telateatro oferece para artistas impulsionadas pelo desejo de criar, recriar e transcriar, a partir dos elementos que tem disponível.

Exercícios para dias estranhos, para além de trazer questionamentos que pipocam na cabeça das pessoas que vivem dias pandêmicos de solidão, morte, desespero, tédio e falta de perspectiva de futuro de maneira humorada, mas não por isso menos crítica, sinaliza para uma reflexão que nos bate à porta. Fazer teatro sem fazer teatro! Como é isso? Usando de uma metalinguagem que não é metalinguagem, já que faz teatro sem fazer teatro, o experimento cênico aponta para uma estética dos “quadradinhos” na tela para forjar interação, típica do teatro, ou preencher os vazios causados pela falta dela. Essa estética, de certo modo, também é usada no experimento América das outras, mas em Exercícios para dias estranhos é usada, principalmente, para questionar o próprio fazer teatral, desequilibrar a tela, o teatro, o olhar público virtual e o tédio dos dias estranhos. O tédio, aqui, é um elemento importante. Ele aparece como um fator que possibilita a mudança ao colocar literalmente os dias estranhos no liquidificador e batê-los. Daí sai uma massa crítica, meio debochada, que experiencia o tédio e faz dele criação, alargando, assim, a própria ideia de teatro a partir das telateatralidades.

Agora que são elas, Preta Rosa Egipcíaca, América das outras e Vozes do corpo deliciosamente apontam para a problematização tão urgente e necessária sobre o direito de viver as individualidades dos corpos femininos. O advérbio deliciosamente é usado, aqui, para expressar a alegria de ver mulheres-artistas se submeterem à experiência cênica a partir de poéticas-políticas que falam e recriam seus lugares de de vida e de potência de criação.

Agora que são elas busca, a partir da realidade pandêmica, reelaborar o significado das existências de 4 mulheres. O que fazer diante da solidão que nos habita e da necessidade de nos fazermos vivas, apesar de tudo, sobretudo? O pessoal, aqui, também é matéria política, já que somos seres históricos e refletimos também o lado de fora que circunda todos os corpos em sociedade: os conflitos domésticos, familiares e pessoais foram evidenciados pela pandemia. Como reelabora-los para não sucumbir diante deles? O que parece mais interessante aqui não é uma tentativa de resposta para as perguntas e nem a solução dos conflitos, mas a comunhão das dores e dos conflitos do(s) universo(s) feminino(s), na tentativa de jogar luz sobre eles e elabora-los a partir do ato de falar, para que, depois que o teatro acabar, a fala possa suscitar a ação. Agora que são elas aponta para uma experiência do depois…

Preta Rosa Egipcíaca reencena, mais do que a vida de uma meretriz negra que viveu em Minas Gerais, a história dos corpos negros femininos, que ocupam a base da pirâmide socioeconômica brasileira. E sexualmente, figuram o lugar comum do imaginário coletivo. Como romper com as imagens estereotipada sobre esses corpos? Como recriar imagens que dão a ver lugares de fala que não são forjados pelo outro branco e em dores somente? Pensar no sofrimento que as mulheres negras passaram, e ainda passam, abre frestas para entender, refletir e criar ações concretas para buscar mudanças dentro das estruturas racistas que forjam toda a nossa sociedade. Entendendo, acima de tudo, que todos têm responsabilidade nessa árdua tarefa. Preta Rosa ainda encena a dor, o preconceito e o entendimento de mercadoria que se tem sobre os corpos negros, tantos das mulheres quanto dos homens. Se encena é porque precisa ainda ser dita, redita e reelaborada a presença desses corpos, não como objetos e coisas que podem ser mercantilizadas, mas como pessoas constituídas de subjetividades, alegrias, conhecimento e tradições.

Em América das outras, três atrizes colocam seus corpos em cena para, através do jogo que a linguagem teatral permite, jogar duplamente com questões políticas: corpo feminino colonizado, invadido e explorado pelo patriarcado e a América, território igualmente colonizado, invadido e explorado pelo capitalismo-branco-europeu. As atrizes jogam com imagens dos seus corpos em paralelo com imagens da terra-América sendo explorada. Dessas imagens duplas e em relação de complementariedade, emergem imagens-textos que tentam borrar e forjar outras imagens e outros textos para corpos que foram constituídos a partir de um imaginário criado para melhor excluir e consolidar a ideia de “outro” e do “diferente”, logo passível de ser explorado. Numa cena que mistura a dimensão coletiva com a individual e vice-versa, as atrizes tentam extrapolar a noção de identidade una e absoluta, assim como a noção de fronteira territorial e de narrativas históricas calcadas no ponto de vista dos exploradores. Extrapolando os centralismos, elas buscam imaginar e concretizar uma realidade em que as mulheres tenham fome  e se saciem do que é próprio delas. América das outras é uma performance po(ética) que imprime na tela vermelha letras brancas de uma revolução silenciosa e não brutalizada.

Vozes no corpo também vem no rastro das revoluções po(ética)s. Aqui, a poesia se faz imagem, corpo, música, texto e “ronco silencioso da barriga que já comeu todas as borboletas do mundo e agora só vive de pastel de vento.” Ainda bem que a borboleta é símbolo da transformação, voa no pastel de vento e virulentamente bate as asas da liberdade. Vozes do corpo é a coreografia do corpo feminino que quer experimentar todas as vozes que sai desse corpo. E é aqui que se instaura o deliciosamente: uma “coreopolítica” que dança uma dança marcada por quem agora deve falar e quem deve escutar (o verbo “dever” é usado no sentido de responsabilidade como cocriação de outras realidades possíveis). Marcar essa dialética de fala/escuta a partir da poesia e de um corpo que dança os próprios quereres, as aventuras e as virulências (soa bem aqui também!), diz das possibilidades de desmanchar, com uma dança pole performática, as imposições autoritárias e machistas e fazer ecoar palavras que vibrem em ouvidos moucos.

Axé!